Para a classe trabalhadora, o 1º de maio passa longe de ser apenas uma data comemorativa no calendário. Trata-se da memória viva das batalhas históricas que forjaram nossos direitos fundamentais, lembrando-nos a cada instante que nenhuma conquista cai do céu. É um dia de memória, sem dúvida, mas, sobretudo, de reafirmação. Todos os direitos que temos foram arrancados a muito custo, com suor, organização, resistência e vidas.
Hoje, os ataques que sofremos ganham contornos ainda mais cruéis. As ruas, recentemente tomadas pela mobilização contra a escala 6×1, escancaram a face de um modelo econômico que suga a nossa força de trabalho até a exaustão, rifando o direito elementar a uma vida digna. Estamos imersos em um cenário brutal: vínculos frágeis, terceirização sem freios, jornadas adoecedoras e um desmonte sistemático do que levou décadas para ser erguido. Frente a essa máquina de precarização, organizar-se coletivamente deixou de ser uma escolha política para se tornar uma necessidade histórica de sobrevivência.
É nas trincheiras dessa luta que o movimento sindical se prova como o elo vital entre a indignação social e a ação política efetiva. Organizados em nossas categorias, construímos uma barreira real contra a ganância do capital. O sindicato segue sendo a nossa principal ferramenta de mobilização, de formação e de pressão. Sem um sindicalismo combativo e de classe, os nossos direitos viram pó sob o arbítrio do mercado e a conveniência do Estado.
Nós, docentes, estamos no centro dessa engrenagem. Compartilhamos o mesmo arrocho, as mesmas angústias e as mesmas incertezas impostas ao restante da classe trabalhadora. Contudo, carregamos a imensa responsabilidade de formar as gerações que assumirão a linha de frente das batalhas de amanhã por justiça e equidade. Defender uma universidade pública, gratuita, de excelência e com forte referencial social não é pedir um privilégio corporativo. É, na verdade, exigir a base material para a emancipação do nosso povo.
Por isso, viver este Dia Internacional das Trabalhadoras e dos Trabalhadores exige do magistério superior uma reflexão dura sobre o nosso papel na transformação social. A nossa unidade é a única arma capaz de barrar o assédio, o adoecimento no ambiente de trabalho e de enfrentar, pela raiz, as opressões estruturais de classe, raça e gênero.
Essa mesma lucidez precisa ser voltada, ainda, para a conjuntura política e eleitoral. As urnas não estão descoladas da luta sindical, posto que se tratam da arena onde se chocam projetos de país frontalmente inimigos. De um lado, a defesa da soberania popular, a valorização do trabalho e a expansão de direitos. Do outro, os velhos porta-vozes do capital, ávidos pela desregulamentação e pela destruição das políticas públicas. Votar com consciência de classe é um ato prático de resistência.
A luta dos trabalhadores e das trabalhadoras requer engajamento real, fortalecimento dos vínculos de classe e isso passa, necessariamente, pelo envolvimento cotidiano no sindicato e na construção coletiva. Sindicato se faz com base organizada e forte.
A precarização recente da força de trabalho não é um fenômeno isolado ou conjuntural, mas expressão de uma dinâmica estrutural dos sistemas capitalistas contemporâneos. A intensificação da exploração, combinada com a fragmentação dos vínculos laborais, a informalidade e a plataformização do trabalho, atua diretamente na desarticulação da consciência coletiva dos trabalhadores. Trata-se de um processo que enfraquece a percepção de pertencimento de classe, dificultando a construção de respostas organizadas frente às ofensivas do capital.
Nesse sentido, é fundamental retomar a reflexão clássica de Karl Marx acerca da passagem da consciência de classe “em si” para a consciência de classe “para si”. Enquanto a primeira diz respeito à condição objetiva de exploração compartilhada pelos trabalhadores, a segunda exige organização, reconhecimento político e ação coletiva. O que está em curso, portanto, é uma tentativa sistemática de impedir essa passagem, mantendo a classe trabalhadora fragmentada, isolada e desmobilizada.
As novas formas de gestão do trabalho, mediadas por tecnologias digitais e por discursos de empreendedorismo individual, reforçam esse processo ao deslocar para o indivíduo a responsabilidade por sua própria sobrevivência em condições cada vez mais adversas. Essa lógica enfraquece os laços de solidariedade e obscurece as relações estruturais de exploração, dificultando a construção de projetos coletivos de
Paralelamente, observa-se a retomada de dinâmicas geopolíticas marcadas por traços imperialistas e neocoloniais, agora sob novas roupagens. A disputa por recursos naturais, mercados e influência política reposiciona regiões como a América Latina no centro de interesses estratégicos globais, frequentemente subordinando seus projetos de desenvolvimento às demandas do capital internacional.
Nesse contexto, a América Latina volta a ser tratada como território de exploração, seja por meio de mecanismos econômicos, financeiros ou políticos, que limitam a soberania dos povos e aprofundam desigualdades históricas. A ofensiva sobre direitos sociais, a fragilização de instituições públicas e a captura de agendas nacionais por interesses externos fazem parte desse mesmo movimento mais amplo de reorganização do capitalismo em escala global.
Diante desse cenário, torna-se ainda mais urgente a construção de uma luta articulada da classe trabalhadora, tanto em nível nacional quanto internacional. A solidariedade entre povos, a cooperação entre movimentos sociais e sindicais e a construção de agendas comuns de resistência são elementos centrais para enfrentar os desafios contemporâneos. Somente por meio da organização coletiva e da articulação política ampla será possível resistir às múltiplas formas de exploração e avançar na construção de sociedades mais justas e igualitárias.
Dito isso, a Diretoria da ADUFPI saúda, com profundo orgulho, cada professora e professor — da ativa e aposentados(as) — que constroem diariamente a trincheira em defesa do magistério superior. Sabemos do tamanho dos obstáculos, mas a força matriz que nos move sempre foi, e continuará sendo, a nossa capacidade de mobilização. Seguiremos lado a lado, intransigentes na defesa dos nossos direitos, da educação pública e das liberdades democráticas.
Que este 1º de maio reabasteça a nossa coragem, afie a nossa crítica e nos mantenha em marcha!
Diretoria da ADUFPI
Associação dos Docentes da Universidade Federal do Piauí










