Universidades Públicas: o desestímulo aos professores

Maio 26, 2009, 4:35 p.m.

Dedicação, conhecimento e experiência: estes são os três pontos fundamentais que os estudantes do ensino superior esperam encontrar no trabalho de seus professores. Porém, talvez não seja este o perfil de corpo docente que muitas universidades possuem atualmente. Por falta de investimentos, algumas instituições enfrentam problemas com os seus professores, insatisfeitos por não serem mais valorizados no seu dia-a-dia de trabalho.

No ensino público, as queixas principais são a falta de recursos governamentais, a infra-estrutura precária e as greves constantes, solução encontrada para reivindicar melhorias salariais e condições de trabalho. Mas apesar de tantos percalços, esta situação não é vista totalmente como prejudicial. Para a professora Marina Barbosa, presidente do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-Sindicato), as lutas do servidor público servem para ter uma mão-de-obra mais qualificada.

"Os investimentos de recursos nas instituições públicas são fruto de muita luta. E, em grande parte das vezes, se originam através de resultados de pesquisas. Nas universidades particulares, a situação é diferente. A mão-de-obra é precária, porque não tem que se qualificar para alcançar resultados. Dos professores, não é exigida uma formação de qualidade. Às vezes, ele leciona porque aproveitou-se o seu nome, e não o seu potencial", critica Marina Barbosa.

Segundo ela, o professor universitário das instituições públicas enfrenta uma situação muito mais complexa do que os das universidades privadas. Para reverter este quadro, a presidente do Andes defende a idéia de que o governo deve valorizar mais as bolsas de estudos em nível de mestrado, doutorado e especialização nas universidades públicas. "Infelizmente, para que o ensino público seja fortalecido, deverá haver um detrimento do ensino privado", lamenta.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, instituiu que as universidades possuam, em seu quadro funcional, um terço dos professores trabalhando em regime integral. A exigência ainda não foi atendida por muitas universidades no país, mesmo após dez anos da sua criação. Para a presidente do Andes, professora Marina Barbosa, as melhorias salariais precisam ser prioritárias, e não apenas a dedicação exclusiva de professores em regime de tempo integral.

"O Andes defende que haja um padrão unificado de qualidade em todas as universidades, seja em São Paulo ou no Acre. Dentro desta idéia, é fundamental que os professores tenham dedicação exclusiva e em tempo integral, mas com um salário decente. Há professores que ganham um salário-base menor que um salário mínimo e só com gratificações e outros benefícios eles conseguem uma remuneração melhor. Não se pode exigir dedicação exclusiva com condições de trabalho assim", afirma Marina.

Nas públicas, faltam professores

Para o professor José Simões, presidente da Associação de Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Adufrj), há uma grande falta de professores nas instituições públicas de ensino superior. "Os concursos não atendem à demanda, que é enorme. Além disso, as universidades públicas, hoje, não atendem à demanda da sociedade, que é por mais cursos noturnos. Por este motivo, as instituições particulares crescem tanto, porque oferecem este tipo de curso", analisa.

O professor José Simões acredita ainda que há uma diferença essencial entre os docentes das universidades públicas e os das instituições privadas: a qualificação constante. Segundo ele, de maneira geral, o professor universitário no Brasil tem ou busca chegar ao doutorado. Quando está no início da carreira, o docente investe logo na sua qualificação. Já aqueles que já lecionam há mais tempo, buscam uma especialização posteriormente. Isso permite que parte dos salários venham das bolsas de pesquisas que as universidades concedem.

Contudo, José Simões ressalta que a diferença básica está na dedicação que se dá às pesquisas. "Na instituição pública, o professor se mantém sempre atualizado, participando mais das pesquisas. O docente do ensino público hoje, no Brasil, está no mesmo nível que os professores da Europa e dos Estados Unidos. Mas os das instituições particulares, por falta de investimento das universidades, estão com uma grande defasagem", avalia.

O presidente da Adufrj diz ainda que, nas instituições públicas, a dedicação fica evidente porque a maioria já atendeu a exigência da LDB. "Em algumas universidades públicas, há muito mais do que um terço do corpo docente trabalhando em regime integral. Só que, na maioria, não há dedicação exclusiva. Como a remuneração é precária, os professores acabam tendo que buscar outras alternativas para ter um bom salário, o que é muito ruim para o ensino", ressalta.

Sem perspectiva de crescimento

Segundo a presidente da Associação de Docentes da Universidade Federal Fluminense (Aduff), professora Sônia Lúcio, o que falta para os professores universitários não é dedicação e, sim, perspectivas de crescimento. "As condições de trabalho da carreira docente e a questão salarial contribuem para a falta de perspectivas. Nas universidades particulares, há professores que são demitidos porque passam a se dedicar à pesquisa no doutorado. Para os empresários da educação, este tipo de dedicação é vista como aumento de salário e, portanto, motivo de demissão", conta.

Ao analisar o caso das universidades públicas, Sônia Lúcio enfatiza que, apesar delas incentivarem mais a pesquisa, o número de professores é cada vez mais insuficiente para a demanda e as condições de trabalho pioraram. "Faltam equipamentos, do giz ao computador. Baixos salários e sobrecarga de trabalho também são constantes. O professor acaba assumindo três ou quatro disciplinas, ou seja, cerca de 200 estudantes em um semestre. O perfil do professor-pesquisador, que defendemos, é alterado para o professor de um ´escolão do terceiro grau´", define a presidente da Aduff.

Também representando a Aduff, a professora Kátia Lima, 1ª vice-presidente da associação, acredita que a exigência da LDB de que as universidades devem ter um terço dos seus professores em tempo integral é importante, mas está sendo utilizada de maneira equivocada. "O trabalho em tempo integral oportuniza um elemento fundamental relativo ao papel da universidade na produção e na socialização do conhecimento: a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão", avalia.

O que a professora Kátia Lima critica é como as pesquisas vêm sendo direcionadas. "O atual governo federal tem destruído esta definição de carga horária docente de dedicação exclusiva e de tempo integral, com ações perversas. As pesquisas são direcionadas para as demandas dos setores privados e não para as demandas da imensa maioria da população brasileira", lamenta.

 

Comente agora

Busca Adufpi

Sistema Adufpi

Contatos Adufpi

Último Informativo

Informativo Adufpi 2017

Adufpi Facebook

Links Úteis