Sobre a Universidade moderna na periferia

Abril 9, 2012, 12:53 p.m.

A Universidade moderna define-se como uma instituição predominantemente produtora de conhecimentos científicos. Antes de ser um espaço que enfatiza o ensino (de teorias ou doutrinas), ela valoriza a pesquisa (em busca de novos conhecimentos). Assim, a sequência hierárquica das atividades universitárias modernas é pesquisa-ensino-extensão.
O conceito de Universidade moderna ganha uma materialidade na organização funcional do campus, que tem uma “arquitetura” radial concêntrica: os institutos de pesquisa básica estão no “centro”, as faculdades de pesquisa aplicada situam-se na “semi-periferia” e, finalmente, os órgãos complementares e administrativos localizam-se na “periferia”. Podemos tomar esse esquema para pensar a relação entre instituições universitárias “centrais” e “periféricas” em âmbito nacional.
No interior de cada país, a exemplo da relação entre nações, há Universidades que dão o “tom” em termos de pesquisa, ensino e extensão. Estas instituições centrais exportam modelos e pesquisas, combinados à propensão das periféricas em consumí-los. Daí, uma tendência imitativa a difundir-se nas Universidades periféricas, decorrência, em boa parte, da real falta de recursos para produzir.
No contexto do capitalismo neoliberal da década de 1990, o modelo “mercadológico” que penetrou no sistema universitário brasileiro acabou orientando para as Universidades periféricas a visão prevalente de escolas profissionais, expedidoras de diplomas para o mercado de trabalho.
Na década de 2000, o sistema universitário nacional transitou da dominância do modelo mercadológico para um padrão baseado prevalentemente na regulação do Estado. Basta lembrarmos o papel de agências como a CAPES e o CNPq na distribuição dos recursos de pesquisas e na avaliação de desempenho das Universidades. Põe-se, assim, o desafio de se explicitar a contribuição específica da Universidade periférica ao sistema de ciência do país. Podemos indagar se não caberia às instituições periféricas priorizar a pesquisa aplicada, ao invés de tentar imitar o sistema de pesquisa básica das instituições centrais.
Tal indagação parte da compreensão de que o que faz uma Universidade não é só a abundância de recursos, mas antes a definição de um projeto acadêmico que possa ser partilhado por todas as unidades que compõem a comunidade universitária. Sendo que as instituições periféricas dispõem de menos recursos, torna-se mais imperativa a busca de um equilíbrio entre as necessidades “particulares” (ligadas ao desenvolvimento regional) e as “universais” (relacionadas ao desenvolvimento nacional e internacional).
O capitalismo periférico do Piauí (primeiro como exportador de bens primários e, depois, enquanto importador de bens industrializados do Sudeste) não gerava, ao contrário do que ocorria nas regiões mais desenvolvidas do país, uma demanda local significativa por ciência e tecnologia. Somente a partir da década de 2000, com a ascensão de um modelo de desenvolvimento capitalista sob a hegemonia política agro-industrial, entra na agenda dos decisores políticos locais a questão de uma política de ciência e tecnologia, que possibilite a aceleração do processo de modernização tecnológica das empresas agrícolas e industriais no estado.

Bibliografia:
BAGATTALLI, C. “Ciência política e política de ciência: projetos políticos e modelos cognitivos na política científica e tecnológica”. In Renato Dagnino (org.), Estudos sociais da ciência e tecnologia & política de ciência e tecnologia. Campina Grande: EDUEPB, 2010.
CASTILHO, F. O conceito de Universidade no projeto da Unicamp. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.
MORAIS, R. de. “Universidade: seus desafios neste final de século”. In A Universidade desafiada. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

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