Ideologia produtivista e conformismo

Junho 30, 2010, 11:07 a.m.

Por que determinadas práticas tornam-se predominantes na universidade, especialmente na pós-graduação? Por que os docentes introjetam a ideologia produtivista de forma acrítica e “natural”? Por que o ethos acadêmico é essencialmente pragmático e de índole mercantil? O que explica a servidão voluntária de indivíduos considerados cultos aos ditames da ideologia produtivista e às exigências dos órgãos e agências como o CNPq, Capes, etc.?! O que ganham e o que perdem ao se submeterem incondicionalmente? Por que mesmo aqueles que são nitidamente prejudicados aceitam resignadamente e não organizam a resistência? São questões que envolvem a prática acadêmica e teimam em martelar a minha mente. Se a reflexão crítica é o ofício do intelectual, o bom senso impõe um certo cuidado para não desgastar-se e, especialmente, não cansar os leitores e colegas. Por outro lado, o tema permanece atual e há sempre novos detalhes a observar. É como ver um filme novamente: sempre nos surpreendemos ao percebermos minúcias não observadas antes. Talvez nas minhas reflexões anteriores incidam algo de ingênuo. Afinal, se tais práticas predominam no campus é porque atendem a determinados interesses, ou seja, há os que ganham ao se conformarem à ideologia produtivista. O ethos pragmático e mercantil corresponde a uma estratégia legítima. Há os que pautam suas práticas universitárias pela mais valia dos bens simbólicos (status, distinção, poder, etc.), pelos ganhos reais (recursos públicos e privados) e se sujeitam às exigências para atingir tais objetivos. São os plenamente adaptados, dispostos a pagar o preço requerido pela competição fomentada por agências e órgãos que ditam as regras do jogo. Nestas circunstâncias, será correto vê-los como vítimas? Eles são os beneficiários. Parece-me, portanto, que se trata de uma adesão consciente. É uma opção e, como em todas, há bônus e ônus. Como recusar-lhes o direito de optar? Se o indivíduo, excitado pela competição, está disposto a qualquer coisa para vencer o jogo – até mesmo a vender a alma e renegar a saúde física e espiritual – não é seu direito? Pode alguém acusá-lo pelo desejo de possuir mais capital simbólico e o vil metal? Tal crítica não é coisa de espíritos ressentidos? Que temos a ver com isso? O individualismo e os valores predominantes na sociedade competitiva legitimam-no. É melhor deixá-lo em paz! Que siga o seu caminho, viva e morra feliz! Há também os que reclamam, os que vivem a se lastimar pelo excesso de exigências, das tarefas a cumprir, etc., mas também se moldam e se resignam às estruturas burocráticas e à ideologia produtivista que influenciam o cotidiano das nossas vidas no campus e no ambiente familiar – e ainda se sentem à vontade para cobrar dos que se recusam a “jogar o jogo”. A despeito dos reclamos e choramingos, se submetem porque não são capazes de abrir mão dos bens simbólicos e materiais a que têm direito enquanto partícipes do “jogo”. Reconheçamos, é uma atitude tão legítima quanto qualquer outra. É uma estratégia motivada por interesses igualmente legítimos. Que, também, vivam e morram felizes! Há, ainda, os que não aceitam as regras do jogo e se recusam a jogá-lo. Claro, também pagam o seu preço – por exemplo, viver apenas do salário, não ter FGs, bolsa produtividade, o status de professor da pós-graduação, etc. Não é tão legítimo quanto as demais estratégias? Eles também têm motivações legítimas. No fundo, o mais importante para eles é simplesmente viver a vida, da melhor forma possível e com a consciência tranqüila. Deixemos-lhes em paz. Até porque, na medida em que se recusa a competir e a “jogar o jogo”, é um concorrente a menos.

 

Comente agora

Busca Adufpi

Contatos Adufpi

Último Informativo

Informativo Outubro 2014

Adufpi Facebook

Links Úteis